EDUCADORES OU EMPREGADOS DOS FILHOS?
Rita Foelker[1]
Dias atrás, saindo do café-da-manhã num hotel, vi um casal carregando copos com suco, pão, bolo e frutas nas mãos abarrotadas. Chegando à porta do elevador, onde eles aguardavam, sorriram parecendo levemente constrangidos.
– Café pros filhos – disse a mãe de cabeça baixa, sem que eu perguntasse.
Acenei com a cabeça e subimos até o mesmo andar.
Apenas um gesto carinhoso? Talvez.
Mas havia observado anteriormente que a menina aparentava ter uns doze anos e o garoto, uns quinze. Na mesa de refeições, a garota especialmente parecia sempre alheia a tudo ao seu redor, incluindo a comida, como se nada fosse mais importante que o joguinho do celular. Havia indícios de ansiedade no seu olhar e gestos.
Tudo isso junto me conduziu à seguinte conclusão: os adolescentes ficaram no celular até tarde e perderam o café da manhã. A família não conseguiu descer unida e agora os pais tentavam consertar isso, carregando a comida para o quarto.
Esse não é um recorte isolado da realidade, pois também faz parte da rotina contemporânea de outras famílias. Alguns pais estão vivendo num estado de clara insegurança sobre como agir perante o comportamento de filhos voluntariosos. Não conseguem ser firmes, começando por não se posicionarem sobre a inconveniência do celular num momento de refeição em família e da importância de respeitar horários estabelecidos. E por conta disso, eles vêm se tornando quase empregados das crianças.
Isso tem consequências para todos. Abdicando de sua função paterna e materna, fundamental na estruturação da personalidade dos filhos, esses pais falham na sua preparação para a vida adulta, cheia de consequências sérias e responsabilidades.
Confundindo amor com “proteção”, com “fazer tudo por eles” (e também com “fazer qualquer coisa para mantê-los quietos”), esses pais ainda se tornam anteparos, paralamas que os “defendem” das consequências do seu comportamento que, ao não repreenderem, estão claramente avalizando.
Na situação descrita acima, penso que o mais apropriado para uma criança com mais doze anos seria pensar: “Ora, se eu não acordei ou não quis me levantar a tempo de tomar meu café, foi porque ontem dormi muito tarde. Perdi a oportunidade. Agora, devo aguardar o almoço. Amanhã, se quiser tomar café da manhã, preciso me levantar mais cedo.”
Afinal, é assim que a vida funciona, não é mesmo?
Fazendo tudo para poupar as crianças dos resultados de seu comportamento, os pais ainda impedem que os filhos compreendam, por exemplo, que há muitas pessoas trabalhando para produzir aquele alimento e servi-lo, mas somente durante algumas horas da manhã e que eles portanto precisam se adequar aos horários.
Não se trata de uma situação apenas: essa é a própria base das noções de convívio em sociedade, fundamentais para quem segue em direção à cidadania plena.
Então eis o alerta que aquela simples situação despertou em mim: fazer costumeiramente pelos adolescentes o que eles já podem fazer por si mesmos, a fim de protegê-los das consequências de suas escolhas, não traz bons resultados.
E o principal deles é torná-los jovens e adultos inconsequentes e imaturos. Quanto aos pais que assim agem no cotidiano, correm o risco de se tornarem empregados para atender aos caprichos deles.
No grau extremo, quem recebe tudo o que quer, na hora que quer, independentemente de qualquer condição e de qualquer regra humana e social, tem apenas um nome: tirano.
E uma forma de impedir que um filho se torne um tirano é trabalhar para que compreenda que na vida existem condições e consequências, tanto para si, quanto para os outros. Se é verdade que crianças e adolescentes têm voz e necessitam de escuta, também é verdade que carecem de ouvir e compreender o significado da convivência na Terra, com todos os seres viventes, encarnados e desencarnados.
Quem estuda, quem trabalha e quem vive em sociedade precisa se adequar a certos parâmetros. Quem anda de ônibus sabe que tem de respeitar os horários. Já aquele que tem carro, sente-se livre para fazer seus próprios horários, mas ainda está sujeito a regras.
Se você entrega um carro a um adolescente que não compreende condições e consequências de uma direção segura, que pratica a direção arriscada e não respeita os limites de velocidade e a sinalização, o responsável pelos incidentes que os atos dele acarretam será você. Não importa quantos anos tenha esse eterno adolescente psicológico, que nunca amadureceu para as decisões e responsabilidades de adulto. Do mesmo modo, é preferível que eles entendam as condições da vida adulta através dos pais, do que nos solavancos de uma vida irresponsável, com desdobramentos eventualmente irreversíveis.
Sim!!! A vida adulta é feita de escolhas, desde as simples até as complexas, cheias de desdobramentos. Algumas são aparentemente inofensivas, a princípio. Se eu, adulto, jogo um papel ao chão em vez do cesto de lixo, parece ser somente uma pitada de desordem em um dia cheio de decisões. Mas os efeitos desse ato não param aí, pois ele pode influenciar outras pessoas a fazerem o mesmo. Pode ficar impresso fortemente na mente dos nossos filhos, que pensarão que é uma ação normal e aceitável.
Lembrando um ponto fundamental: entre as escolhas humanas há sempre um forte componente moral. Na fase humana do progresso espiritual, adquirimos a noção de consequências morais e sabemos que, entre nossas possíveis ações, há aquelas que ajudam e as que prejudicam o próximo, a sociedade e a Natureza. As que exprimem respeito; outras, desrespeitosas e, eventualmente, prejudiciais até...
Chega, portanto, de agir como se nossos filhos fossem crianças para sempre. Em vez disso, é preciso orientá-las desde cedo. Temos deveres perante a Lei Divina e, também, com as leis que regem as reencarnações e que nos reuniram numa mesma família.
[1] Rita Foelker é mestre em filosofia, jornalista e autora de Pais e Filhos, Companheiros de Jornada (2002), Caminhando em Família (2005) e Famílias Espiritualmente Inteligentes (2014), entre outros livros.




